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Há pouco mais de um ano, escrevemos um artigo dedicado ao Xadrez onde, entre outras coisas, foram abordadas similaridades significativas entre esse jogo e o Poker

Há alguns cruzamentos estratégicos bastante fortes entre estes dois jogos e, considerando essa sinergia, não é surpreendente encontrar alguns jogadores de xadrez nas mesas. O entusiasta do xadrez Martin Staszko, descreveu o poker como um jogo fácil no decorrer da sua caminhada para o segundo lugar no Main Event das WSOP 2011.

Posto isto, o xadrez não é propriamente o jogo mais sexy do mundo. Não há muitas superestrelas do xadrez por aí.

Por isso, talvez consiga imaginar o choque quando encontrei um vídeo de Magnus Carlsen a fazer um bluff gigante no Norwegian Poker Championship em Abril.

Mal podia esperar para ver quão bom este grande mestre do xadrez era!
 

Índice

Magnus Quem?
A Mão Começa
O Flop J♠8♠3♠
O Turn 5♠
O River Q♣


Magnus Quem?

Apesar de ter a certeza que há mais posters do Cristiano Ronaldo nas paredes do que de Magnus Carlsen, Carlsen está para o xadrez como Ronaldo está para o futebol. Mas vamos falar um pouco sobre ele.
 

peças de xadrez


Basicamente, Carlsen é um dos melhores jogadores de xadrez de todo o sempre. Seguem os resultados de uma simulação feita numa calculadora que simula quem venceria uma partida com base no ELO para lhe dar uma ideia do quão bom ele é. No fundo, podemos usar a pontuação de cada jogador (ELO) para calcular a sua probabilidade de vencer uma partida.

Os resultados mostram a probabilidade de vitória de partidas ‘à melhor de 20’ entre Carlsen e Iireza Firouzja, o segundo melhor jogador do mundo (utilizei a Wikipedia para aceder às suas pontuações de habilidade).

Resultado Probabilidade
Vitória de Carlsen 0.8383312233
Vitória de Firouzja 0.091182413
Empate 0.070486364

Como pode ver, Carlson é um enorme favorito, mesmo contra o segundo melhor jogador do mundo.

Parece-nos claro que Magnus é um mestre da estratégia, mas quão bem consegue ele aplicar esta capacidade na mesa de poker?

Vamos analisar “o bluff” e descobrir.

A Mão Começa

Carlsen recebe Ases. Ele está no hijack e a ação chega a si em fold. O mestre do xadrez faz open-raise para 11.000 com as blinds a 2.5k/5k, o que é um sizing bastante normal para aquela fase de um torneio.

Talvez veja jogadores menos experientes a fazer raises maiores naquela situação, especialmente num MTT ao vivo onde os sizings têm tendência a ser um pouco maiores. Mas mais pequeno é normalmente o caminho certo já que possivelmente vai estar a abrir neste spot para tentar roubar as blinds.

  • Mãos fortes são raras. Por isso, esta frequência de raise mais alta significa que um jogador competente estará a abrir com muitas mãos fracas, colocando-se vulnerável a 3-bets.
     
  • Utilizar este tamanho de raise como o mais comum nesta situação é uma boa decisão. Minimiza o investimento de fichas quando levamos 3-bet e somos forçados a fazer fold.

Obviamente, Magnus está mortinho por levar 3-bet nesta situação em específico. Mas é essencial considerar todas as situações quando estamos a decidir que sizing utilizar.

Apesar do sizing ser bastante comum, indica que Magnus tem, pelo menos, alguma experiência no poker. Ele pode estar simplesmente a copiar aquilo que viu toda a gente fazer (muitos fazem-no quando são novatos no jogo). Mas fatores como a forma de Carlsen se sentar na mesa e manusear as fichas sugerem que ele está muito confortável numa mesa de poker. Esta observação é algo a considerar à medida que a mão progride.

De qualquer forma, o botão faz call e ambas as blinds também se juntam à festa. Os quatro jogadores vêem um flop monotom. 
 

ases poker


O Flop J83

Ambas as blinds decidem fazer check e a ação chega a Magnus, que aposta 21.000 fichas num pote de 51.000, ou seja, cerca de 40% do pote.

Esta aposta foi muito criticada numa thread recente no Facebook. Muitos defenderam o check para tentar controlar o tamanho do pote.

Esta jogada tem, sem dúvida, o seu mérito. É um caminho sensato contra jogadores muito tight. Eles serão muito menos liberais com as mãos com que fazem call tanto pré como pós-flop (tornando mais difícil extrair valor). Adversários mais tight talvez o deixem chegar a showdown mais facilmente.

Fazer check contra bons jogadores ou jogadores que têm tendência a jogar os seus draws agressivamente é uma opção. Jogadores agressivos podem dificultar-lhe muito a vida nestas situações.

Mas eu sou um grande fã de apostar por valor aqui contra oponentes fracos ou desconhecidos por vários motivos.

Mãos Piores Farão Call

Em primeiro lugar, há imensas mãos piores com que os jogadores vão querer continuar aqui, especialmente com ambas as blinds no pote. As pot odds atraentes pré-flop significam que estes adversários possivelmente farão call com um range muito amplo pré-flop. Podem ter um conjunto de mãos com um par, draws ou até par + draw com que vão fazer call pelo menos uma vez.

Lembre-se, as pessoas odeiam fazer fold!

Mãos com Equity Alta Farão Fold

Da mesma forma, também há uma grande quantidade de mãos com excelente equity com que os jogadores farão fold muito facilmente face a uma aposta. Mãos como 4♠4♦, A♦2♠ ou A♥9♠, por exemplo, não nos devem dar muito trabalho. Elas têm entre 30 a 40 porcento de equity, por isso afastá-las é um excelente resultado.

Também fica menos provável perdermos para um draw quando apostamos e ficamos a jogar contra menos jogadores.

Não interprete mal aquilo que estou a dizer. Sem o Ás de espadas, apostar é um bocado como conduzir sem cuidado quando não temos seguro. Há um número decente de outras mãos não feitas que têm uma ligeira vantagem de equity, como por exemplo, J♥9♠, T♠9♥ e Q♠J♥.

Mas apostar também dificulta a vida aos jogadores com essas mãos, especialmente se não forem particularmente agressivos com os seus draws.

Tirar Valor do Ás de Espadas & Outras Mãos Sem Espadas

Não ter o Ás de espadas permite que tiremos valor de mãos com essa carta e não só. Por exemplo, nós somos favoritos em cerca de 80% contra uma mão sem espadas como K♦J♦, J♣T♣ ou Q♣J♦. Estas mãos não vão a lado nenhum.

Para além disso, ranges de mãos mais amplos são fruto das pot odds apetecíveis que as blinds proporcionam. Por isso, quaisquer espadas que esses jogadores tenham não serão necessariamente tão fortes quanto aquelas que o jogador no botão poderá ter (É muito menos provável o botão ter mãos off-suit fracas como J8o, T9o, 97o etc.).

Digamos que os jogadores nas blinds fazem call e melhoram a sua mão. Há sempre a possibilidade de fazer bluff contra eles mais tarde. Oh, esperem... ups, spoiler alert!

De qualquer forma, fazer check nesta situação torna menos provável conseguir estes folds em streets futuras.

Fold Fácil se Levarmos Raise

Obviamente, apostar abre a possibilidade dos nossos adversários fazerem raise. Apesar de não ser nada bom levar raise neste spot, teremos uma decisão bastante trivial caso tal aconteça. Sim, é uma chatice fazer fold a Ases. Mas para perder a sua stack aqui, você teria de ser muito... er... que palavra bonita posso usar para ‘maluco’? Ambicioso?

Grande parte desta discussão nasce do facto do pote estar a ser disputado por vários jogadores. É muito mais provável que mãos como sets, dois pares, ou flushes sem nuts joguem rápido por proteção. Jogadores com essas mãos quererão prevenir que o turn ou river matem a ação e tentarão extrair valor rapidamente (o que é mais fácil com mais jogadores no pote).

Mais jogadores significa, normalmente, mais calls. Por isso, é muito menos provável que os jogadores tentem bluffs muito loucos. É provável que possamos fazer um fold bastante fácil face a uma resposta forte por parte dos nossos adversários.

Manter a Iniciativa

Apostar também nos permite manter a iniciativa. A mão torna-se mais fácil de navegar, especialmente se o botão fizer fold. Podemos ditar o ritmo do turn e do river. A não ser que a mesa seja extremamente passiva, fazer check tornará as coisas muito mais difíceis para nós.

Em suma, muitas coisas boas podem acontecer quando apostamos:

  • Podemos tirar valor;
  • Negar equity;
  • Preparar apostas futuras (caso decidamos que queremos fazer bluff);
  • Proteger a nossa mão e até adicionar um pouco daquela vibe “Olá, eu sou o Magnus Carlsen e sou um mauzão”.

A maioria dos jogadores desconhecidos jogam de forma muito honesta em potes multiway como este – por isso, eu sou um grande fã desta aposta no flop.

Bem, de volta à mão, o botão e a SB fazem fold. A BB faz call e a dupla de jogadores vê o turn. 

O Turn 5♠

E é no turn que as coisas se tornam fascinantes. A BB faz check e Magnus decide armar-se em Viking. Ele atira uma aposta de 30.000, equivalente a cerca de 30% do pote.

...Perceberam? Norwegian Poker Tour, Escandinávia, Vikings...? OK, esqueçam...

Se olharmos isoladamente para esta aposta no turn, é possível que não pareça assim tão boa:

  • Damos ao nosso adversário um excelente preço para fazer call;
  • É difícil levar call de pior;
  • Já temos showdown value suficiente para bater muitas das mãos com que eles farão fold.

Posto isto, consideremos a aposta contextualizada. Se assumirmos que Carlsen a fez com um plano em mente, é aceitável, especialmente contra o range da big blind.

Lembre-se, estamos a lidar com um dos melhores estrategas de sempre. Seria muito ridículo sugerir que um homem capaz de estar dez movimentos à frente de si próprio num jogo de xadrez seria capaz de atirar umas fichas para o centro sem ter um plano.

No entanto, a principal razão pela qual eu gosto da aposta no turn, é o tamanho da mesma. Este sizing força o nosso adversário a fazer call com os seus dois pares, sets e flushes, o que será excelente para nós no river.

Sim, leu bem. Eu disse que é bom que o nosso adversário faça call com mãos melhores quando estamos a fazer bluff. 

Permita-me explicar:

Tal como aconteceu pré-flop, quanto mais amplo um range de mãos se torna, mais fraco fica. 

  1. Quando apostamos o turn com um size um pouco mais pequeno, o nosso adversário recebe um melhor preço para fazer call com mais combinações de mãos. Depois, poderemos atacar essas mãos com uma aposta grande no river (precisamente o que acontece aqui).
     
  2. Tal como, quando apostamos maior, o nosso adversário faz fold a um maior número das suas mãos fracas no turn. Por isso, qualquer call resultará num range mais forte no river. Um bluff no river seria mais caro e teria menos sucesso.

E o sizing faz sentido. Tendo em conta a má carta no turn, faz todo o sentido reduzir o tamanho da nossa aposta quando temos flushes fortes. O tamanho da aposta dificulta um bluff raise, caso o nosso adversário o planeasse fazer. O check/call no flop por parte da BB indica, também, um desejo de ir a showdown sem investir muito no pote.

Não há nada de errado em abrandar aqui. É provável que consigamos fazer check muitas vezes numa situação idêntica e, ainda assim, bater uma mão tipo KJ em showdown. Mas essa opção será apenas viável contra adversários mais passivos.

Contra adversários mais fortes, fazer check aqui aumenta a probabilidade deles transformarem a sua mão num bluff com uma grande aposta no river. É pouco provável fazermos check com um bom flush neste turn com um SPR tão alto.

Também nos deixa a adivinhar e retira-nos a opção de fazer bluff de forma credível quando achamos que estamos batidos.

Em suma, acho que o sizing pequeno utilizado por Magnus no turn é ótimo. Coloca o seu adversário numa situação complicada e prepara uma boa situação para o river.

O Vilão faz check/call e ambos veem o river.

O River Q♣

O river é a Dama de paus e a BB faz check para Magnus que atira outra... esperem, o quê? O Vilão aposta 30.000 e Carlsen faz raise para 100.000!

Não acho que a aposta da BB seja muito boa. Geralmente, acho que é melhor liderar em cartas que são melhores para o seu range. 

  • Elas aumentam a probabilidade do seu adversário fazer check-back.
  • Você perderá valor ou perderá em showdown.

Mas este river não adiciona absolutamente nada, considerando a textura da board, por isso não sou fã.

Gostaria muito mais de ver esta aposta (para induzir) caso a BB tiver o nut flush, pois isso enfraquecia consideravelmente o range de Carlsen. Mas acho que é, provavelmente, muito mais normal deixar o nosso adversário continuar a barrilar neste spot precisamente por essa razão.

Lembre-se, o sizing pequeno de Carlsen significa que a BB tem ainda muitas mãos fracas com que pretende ir a showdown. Por isso, manter os flushes fortes no range de check/call ou check/raise protege-o quando faz check. Esta estratégia fará jogar contra si mais difícil e desencoraja muitos bluffs.

Eventualmente, Magnus decide fazer raise para 100.000, o que não é nada surpreendente tendo em conta a aposta bizarra do seu adversário. Lembro-me de tentar uma donk-lead destas contra David Kitai no Main Event das WSOPE 2017 – correu bem... Fui tão destruído nesse dia!

De volta à mão, eu gosto do sizing de Carlsen, mais uma vez. O range de Magnus é muito polarizado quando faz raise aqui. Por isso, não há necessidade de o fazer maior.

Simultaneamente, parece extremamente forte e dá a si próprio um excelente preço para um bluff.

Relativamente aos bluffs, a arte está em encontrar o equilíbrio perfeito entre a quantidade que arrisca e a frequência dos folds do seu adversário. O raise de 70.000 representa uma grande fatia da stack do seu adversário. Por isso, acho que Magnus encontrou um excelente equilíbrio com o raise para 100.000.

Sim, um shove provavelmente resultaria em mais folds. Mas também seria muito mais caro e teria muito menos valor.

Sem pensar muito, a BB faz fold e Magnus recolhe o pote demonstrando o quão transferível uma mente ávida do xadrez para a mesa de poker é.

Concluindo, eu gosto da forma como Magnus jogou esta mão. Uma abordagem passiva também seria uma opção viável. Muitos jogadores teriam mostrado a bandeira branca no flop ou no turn e acabariam por perder em showdown.

O turn foi uma street muito importante. Teria sido um erro apostar no turn e não no river.

Felizmente para Carlsen, ele teve a coragem necessária para seguir com o seu plano.

Muito bem jogado!

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