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Se há coisa que une os jogadores de poker, é o ódio pelos burlões. De alguma forma, no nosso estranho mundo de bluffs, traps e estratagemas, a honra e a integridade são bizarramente primordiais. Não lamentaríamos se um adversário ficasse com o nosso último cêntimo, desde que o fizesse seguindo as regras!

Mesmo com o maior sucesso nas mesas, você só é considerado tão bom quanto a sua reputação. O mais pequeno defeito moral pode deixá-lo em frangalhos.

Veja as atitudes em relação aos envolvidos no escândalo da Full Tilt Poker. Já se passou mais de uma década e são ainda incomodados sempre que entram numa sala para jogar poker.

Ao longo dos últimos anos, houve vários escândalos de suspeita de batota no poker. Tivemos um pouco de tudo, desde questões éticas como o ‘speech play’ de Kassouf até ao alegado ‘soft play’ de Bicknell. Depois, houve acusações de batotice como as da saga Mike Postle, há alguns anos atrás.

A Mão Que Abanou o Mundo do Poker

Ainda não conseguimos condenar nenhum vilão. Mas os jogadores de poker adoram um bom escândalo. Parece que as acusações de batota tornaram-se nas novelas mexicanas do mundo do poker.

  • Basta sussurrar a palavra “batota” para os guerreiros do teclado saírem da toca.
  • Joey Ingram é o detetive.
  • As redes sociais rebentam mais rapidamente do que um balão numa partida de futebol jogada por ouriços.

Recentemente, tudo isto voltou a acontecer – de novo. A mais recente saga envolve uma mão bizarra, transmitida na internet, onde Robbi Jade Lew fez call a toda a sua stack com Valete-alto.

Este call levou o mundo do poker a ataques de descrença e ceticismo. Foi a leitura do século ou batotice descarada?

Veja como a mão se desenrolou no seguinte vídeo:

Em relação a toda a situação, a rapidez com que as pessoas começaram a lançar acusações tão sérias é um pouco preocupante. Embora a mão seja indubitavelmente estranha, não há qualquer prova de que ela estava a fazer batota.

Por isso, é um pouco injusto tirar conclusões tão sérias de forma tão precipitada. Pode haver alguns argumentos convincentes (e criativos) a favor da batota de Robbi. Mas são todos baseados em opinião e especulação.

Muitos condená-la-ão, ainda assim, como culpada, mesmo na ausência de provas. Mas estes ‘escândalos’ prejudicam a ampla reputação do poker.

Normalizar este tipo de reação não é do interesse de ninguém.

Robbi Estava a Fazer Batota ou Não?

Se suspeita que há jogo sujo, é normalmente melhor manter-se atento à potencial batota, de forma serena, recolhendo provas e construir um caso mais forte contra o batoteiro. Tal como vimos com o exemplo de Postle, é bastante difícil tirar conclusões, mesmo com meses de imagens televisivas que podem servir de prova.

Considerando que temos apenas algumas sessões de Robbi para avaliar, será praticamente impossível construir um forte caso contra ela.

Para além disso, as fortes acusações que circulam, tornam muito menos provável que Robbi continue a fazer batota. (Se é que ela o estava a fazer em primeiro lugar.)

Então porque é que as pessoas pensam que ela estava a fazer batota?

Parece haver três principais argumentos a favor da batota:

1. A forma como ela jogou a mão parece bastante absurda;
2. Ela não parece conseguir explicar as suas ações;
3. Devolver o dinheiro parece uma admissão de culpa.

Sem dúvida, a parte mais suspeita da mão é o call no turn. Depois de ter feito float no flop, Robbi está no fundo do seu range e em muitos maus lençóis contra grande parte do range de bluff de Garrett.

Ela praticamente não tem showdown value. De uma perspetiva estratégica, se fizer call com esta mão, então raramente fará fold neste spot.

A ideia de que qualquer jogador faria call nesta situação parece muito ridícula.

Há apenas um par de razões concebíveis para um jogador que não seja batoteiro fazer call aqui:

Uma Má Leitura da Mão?

A primeira é ela ter lido mal a sua mão. Parece descuidado (e é), mas acontece aos melhores. Robbi disse que achava ter J3. Um par de ternos dar-lhe-ia um muito melhor candidato para fazer call do que J4-alto.

Uma má leitura da sua mão explica a jogada, mas Robbi passou um bom tempo a olhar para a sua mão antes de fazer call, por isso é bastante improvável que seja esse o caso.

Posto isto, estou relutante em descartar essa possibilidade completamente. Eu próprio já olhei para as minhas cartas sem registar quais eram. Estava apenas a pensar na decisão à minha frente.

Uma leitura errada é improvável, mas não impossível. Especialmente porque Robbi diz que pensou que Garrett tinha Ás-alto muito rapidamente após a mão.

Batota?

No que toca à possibilidade de ver as cartas de Garrett, isso seria, de novo, muito improvável. Para além de ter um dealer entre eles, era pouco provável ela fazer raise no turn se soubesse a mão exata de Garrett. Considerando a excelente equity que ele tem, dificilmente fará fold.

O raise dela permitiria que ele fizesse shove com bastante equity.

Se Robbi tivesse conhecimento do que Garrett tinha, provavelmente faria call, sabendo que podia jogar o river de forma perfeita, reduzindo variância.

Então, se ela não conseguia ver as cartas de Garrett, como é que estaria a fazer batota? Uma das teorias mais populares centra-se à volta da utilização de algum tipo de ferramenta vibratória. Muitos dizem que conseguem ver a sua cadeira, anel e copo a tremer nos vídeos.

Apesar dos batoteiros usarem sistemas vibratórios há muito tempo, a premissa baseia-se em isso ser subtil e impercetível.

  • Vibrações fortes o suficiente para mover um copo ou uma cadeira seriam uma contradição direta a essa premissa.
  • Tal os tornaria desnecessários e provavelmente percetíveis para outros jogadores na mesa.

Lembre-se, ela estaria a utilizar um dispositivo vibratório oculto, não um dildo serpenteante preso à perna com fita-cola. 

Dispositivos vibratórios são bastante simples. Os senhores das teorias da conspiração defendem que Robbi tinha um cúmplice que podia ver as cartas dos outros jogadores. Eles utilizariam o dispositivo para indicar se ela tinha, ou não, a melhor mão.

Embora ainda não haja provas de que a integridade do programa tenha sido comprometida, uma ideia semelhante estava por trás do escândalo de Postle há alguns anos.

Tal como viajar no tempo, a alegação do dispositivo vibratório faz sentido em teoria. Mas não há provas de que um dispositivo estivesse a ser utilizado, especialmente porque Robbi está a usar roupas justas.

Para além disso, qualquer cúmplice teria de ser muito burro para pensar que valia a pena arriscar nesta situação. É de alto risco financeiramente e chamaria muito a atenção. 

Porquê fazer batota nesta mão? 

Realisticamente, fazer batota pode correr de uma de duas formas:

1. Exagerar e jogar de forma perfeita (tal como Postle aparentemente fez no seu escândalo);
2. Ou utilizar a sua vantagem com moderação para evitar chamar a atenção.

Robbi não fez nem uma coisa nem outra. Na pequena amostra de mãos que temos, ela faz call com J8 quando já está drawing dead. Ela fez calls perdedores onde fazer fold seria bastante razoável.

No geral, a sua forma de jogar está longe de ser perfeita e muito longe daquilo que vimos com Postle.

A forma imperfeita de Robbi jogar levou muitas pessoas a afirmarem que ela e o seu suposto cúmplice tomaram más decisões deliberadamente. Eles estavam, deliberadamente, a tentar tornar inacreditável qualquer possibilidade de batota. 

Mas esta afirmação contradiz diretamente a acusação original. Um batoteiro cuidadoso certamente quereria evitar a atenção que fazer call all-in com Valete-alto atrai, certo?

Se ela estivesse a tentar tornar as coisas credíveis, então não quereria tornar as vitórias mais realistas também?

Embora o call seja bizarro, as acusações de batotice também foram alimentadas pelo que aconteceu depois da mão.

O Reembolso

A primeira coisa verdadeiramente estranha tem lugar quando Robbi devolve o dinheiro a Garrett fora da mesa e longe das câmaras. Muitos interpretaram esse gesto como algum tipo de culpa por fazer batota. Mas convenhamos que a consciência de alguém que faz batota não é grande coisa. Então, parece contraditório esperar que um batoteiro fique de consciência pesada logo após o fazer, ao ponto de devolver o dinheiro.

Para além disso, não sabemos sequer qual o contexto do reembolso:

  • Se calhar ela estava sob pressão ou chateada por ver o quão angustiado Garrett estava.
  • Talvez ela seja inocente e acredite que devolver o dinheiro provaria que não estava a fazer batota.
  • Talvez Robbi se tenha sentido culpada ou envergonhada depois de saber o quão mau foi o seu call.
  • Ou se calhar ela é só uma batoteira a tentar acalmar as coisas de forma a evitar ser apanhada.

Nesta altura, ninguém sabe.

É impossível compreender as ações de Robbi sem saber muito sobre a sua personalidade e razões para jogar. Um jogador profissional raramente devolveria o dinheiro nesta situação.

Mas Robbi é inexperiente. Por isso, não podemos necessariamente esperar que ela pense como uma profissional experiente.

Os Comentários de Robbi

Depois do call, Robbi enfrenta críticas e faz vários comentários aleatórios para justificar o seu call. Aqueles que acusam Robbi de fazer batota sugerem que a sua incapacidade de explicar a sua decisão reforça a teoria de que um terceiro estava a dizer-lhe o que fazer.

Na ausência de provas objetivas, estes comentários são justificáveis num jogador confuso e inexperiente. Ela fez um call teimoso, justificado por conceitos que ela não compreendia ou era capaz de aplicar corretamente.

Muitas pessoas têm dificuldade em perceber como o call pode ser legítimo, já que é tão horrível do ponto de vista estratégico. Mas Robbi não é uma jogadora profissional, então não podemos esperar que ela pense ou jogue como uma.

Mr Beast fez jogadas igualmente más recentemente nos seus streams e ninguém disse nada. Embora seja uma decisão louca, Robbi é uma amadora. 

Chamar batoteiro a um amador porque ele fez uma jogada de amador é como chamar cão a um gato porque ele ronronou. 

O Que É Que Ela Estava a Pensar?

Os seus comentários desajeitados carecem de qualquer coesão estratégica real. Mas Robbi convenceu-se de que Garrett estava a fazer bluff. Contudo, a mão dela perde para muitos dos bluffs prováveis.

Mas ela lutou para ignorar a possibilidade de Garrett ter um dos poucos bluffs que ela poderia bater (como 76, 86 ou 87).

O Profissional Famoso na Mira

Esta jogada tem muito a ver com a dinâmica entre Garrett e Robbi. Apesar de Garrett parecer bastante neutro, muitas das decisões de Robbi contra ele sugerem que ela queria superá-lo. Isto acontece com alguma frequência quando amadores estão contra jogadores famosos e estão dispostos a tentar provar que são bons jogadores.

Como Garrett é uma das caras do jogo, pode ser um fator determinante para a decisão dela fazer call.

Quando Robbi ganha o pote, ela parece satisfeita e presunçosa e até manda algumas bocas a Garrett. Somente quando o seu call começa a receber críticas é que ela começa a entrar em pânico. A sua justificação desajeitada para fazer call era tão pobre que não resistiu às críticas dos melhores jogadores.

Consequentemente, ela fica relutante em admitir que tomou uma má decisão e começa a cavar um buraco mais fundo. 

Vencer o Pro!

Parece-nos claro pelos seus comentários que ela é ultracompetitiva. Ela estava mais preocupada em derrotar Garrett do que com o dinheiro. Este facto também explica o call, a sua vontade de devolver o dinheiro e porque ela o desafiou para jogar heads-up entretanto.

Vemos este tipo de ego muito mais vezes nas mesas do que batotice. Por isso, é pouco provável que o call resulte de batota. É mais indicativo de um simples hero call louco.

Considerando o tempo que vimos Robbi demorar para tomar decisões simples noutras ocasiões, é óbvio que ela odeia fazer fold (tal como todos nós!). Tal como muitos maus hero calls, ela fez call na esperança de estar à frente e não porque achou que estava à frente.

Ela sabia que ia estar atrás a maioria das vezes. Mas parece que estava demasiado seduzida pela possibilidade de estar certa.

Este tipo de hero calls acontecem de vez em quando.

O call de Robbi não é prova de batota, mas o resultado de um jogador recreativo a fazer aquilo que os jogadores recreativos fazem.

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