Aviso: O conteúdo aqui apresentado tem uma finalidade exclusivamente informativa sobre um tipo específico de jogo e como jogá-lo. O objetivo deste conteúdo não é nem promover nem disponibilizar um tipo de jogo, mas simplesmente informar o jogador acerca de como jogá-lo.


  • Stu Ungar, filho de pais Judeus, nasceu em Nova Iorque em 1953 e dedicou-se desde cedo ao Gin Rummy, um jogo de sorte e azar muito famoso em meados do século XX;
  • Em finais dos anos 70, depois de tomar o mundo do Gin Rummy de assalto, Ungar dedicou-se ao Poker e não demorou muito a tornar-se numa lenda;
  • Foi campeão do Main Event das WSOP em 1980, 1981 e 1997 e ganhou, ainda, mais duas braceletes em side events nos anos 80;
  • Infelizmente, The Kid, como Ungar ficou conhecido, faleceu devido a um ataque cardíaco aos 45 anos, sozinho e falido.

 

Índice

  1. Os Primórdios
  2. Do Gin Rummy para o Poker
  3. Ungar nas World Series of Poker
  4. O Reaparecimento
  5. A Queda
  6. Recordar Stu Ungar
  7. Conclusão

 

Qual é o melhor jogador de poker de sempre? É uma pergunta que todos nós já colocámos e temos a certeza que quase todos tiveram bastante dificuldade em responder. Ter de decidir sobre qual a maior lenda deste jogo é, sem dúvida, uma tarefa ingrata e várias listas partilham os mesmos nomes. Um desses nomes é o de um jogador que, infelizmente, deixou-nos cedo, muito devido ao seu estilo de vida. Um jogador que, ainda que tenha falecido aos 45 anos, deixou um legado no mundo do poker e que se tornou num ícone das World Series of Poker (WSOP). Falamos, claro, de Stu Ungar e neste artigo contaremos a sua história e porque é que era um jogador tão especial.

Os Primórdios

Stuart Errol Ungar, filho de pais Judeus, nasceu a 8 de Setembro de 1953 em Nova Iorque, Estados Unidos da América. O seu pai, Isidore Ungar, também conhecido por Ido, era um agiota que geria um bar chamado Foxes Corner onde também decorriam jogos de sorte e azar o que expôs Stu a esse tipo de jogos desde muito cedo. Apesar dos esforços por parte do seu pai para o afastar desses jogos, Stu começou a jogar gin rummy ilegalmente e tornou-se num jogador bastante popular nesse meio. 

Após a morte do seu pai e pelo facto da sua mãe, Faye Ungar, ter ficado incapacitada devido a um enfarte, Ungar ganhou asas e percorreu variadas casas de jogo ilegal por toda a cidade até fazer 18 anos, altura em que conheceu Victor Romano, um famoso mafioso dos anos 60. Romano era um jogador de cartas extraordinário e tinha a capacidade de calcular probabilidades (odds) da mesma forma que Ungar. Esta partilha de interesses entre ambos resultou numa relação próxima tornando Romano no mentor e protetor do rapaz de 18 anos.

Do Gin Rummy para o Poker

Stu Ungar era um génio e foi desde muito cedo que essa faceta sobressaiu. Na escola, o lendário jogador de poker saltou o 7º ano por puro mérito, mas, infelizmente, acabou por desistir no decorrer do 10º ano.

No entanto, não era só na escola que a genialidade de Ungar era óbvia. Com apenas 10 anos, ele ganhou um torneio local de gin rummy e foi precisamente nesse jogo que se apoiou quando decidiu abandonar a escola. Era esse o jogo que o sustentava a ele, à mãe doente e à irmã após o falecimento do seu pai. Foram muitos os torneios que terminaram com Ungar a ocupar o primeiro lugar do pódio e estima-se que os seus ganhos rondaram os $10.000 USD. 

Eventualmente, já no topo da sua carreira como jogador de gin rummy, Stu foi obrigado a deixar a sua terra natal por causa de dívidas que acumulou por causa de apostas em corridas e o destino foi, primeiramente, Miami e, em 1977, Las Vegas.

Um dos motivos que levou Ungar a procurar o poker foi o facto dos jogos de gin rummy começarem a secar devido à sua reputação. Qualquer jogador que se atravessasse à sua frente numa partida de gin rummy era quase garantido que iria perder. Aliás, um dos casos mais marcantes foi o de Harry “Yonkie” Stein, considerado o melhor jogador de gin rummy da geração de Stu Ungar até à data. Ungar derrotou Stein por 86 (oitenta e seis!) jogos a 0 num jogo de highstakes o que fez o até então rei de gin rummy desaparecer dos círculos do jogo para sempre. 

Depois disso, vários jogadores deixaram de aceitar jogar contra Ungar e, inclusivamente, os casinos pediram que o jogador deixasse de participar nos torneios porque um número elevado de pessoas dizia que não jogariam os torneios caso soubessem que o prodígio do gin rummy faria parte da lista de jogadores. 

Aliás, apesar de Stu Ungar ser conhecido, hoje em dia, pela sua carreira no poker, ele próprio considerava-se um melhor jogador de gin rummy do que de poker. Ele escreveu na sua autobiografia:

Um dia, suponho que apareça alguém que se torne num melhor jogador de no limit hold’em que eu. Duvido, mas é possível. Mas, juro, não vejo como alguém poderá vir a jogar gin melhor do que eu.

Foi assim que Ungar, não conseguindo obter a ação que desejava no jogo que mais dominava, decidiu procurar alternativas e o seu próximo desafio foi o poker onde sabemos que teve um enorme sucesso.

Ungar nas World Series of Poker

“The Kid”, como Stu Ungar ficou famoso pela sua aparência de quem seria muito mais novo do que na realidade era, chegou às World Series of Poker (WSOP) pela primeira vez em 1980. E foi um caso de chegar, ver e vencer.

O jogador oriundo de Nova Iorque tinha apenas jogado outro torneio da mesma envergadura do Main Event das WSOP – o Super Bowl of Poker – quando derrotou Doyle Brunson heads-up para vencer a bracelete de campeão. À data, com 27 anos, tornou-se o jogador mais novo de sempre a vencer um Main Event e Brunson disse, inclusivamente, que foi a primeira vez que viu um jogador ficar notavelmente melhor ao longo dum torneio.

Em 1981, The Kid voltou ao Binion’s Horseshoe para defender o título e, adivinhem, voltou a levar uma bracelete para casa. Desta vez foi Perry Green o último adversário a ser eliminado por Ungar que se tornava assim no terceiro jogador da história a vencer o Main Event das WSOP consecutivamente, juntando-se a Johnny Moss e Doyle Brunson.

Ainda assim, a coleção de braceletes de Ungar não se cingiam apenas a Main Events. Em 1981, o ex-jogador de gin rummy ganhou o evento $10.000 Deuce to Seven Draw e em 1983 a sua quarta bracelete chegou-lhe pela vitória no $5.000 Seven Card Stud.

Sabemos que os fields eram mais pequenos, mas não deixa de ser incrível que em três anos, Ungar tenha ganho quatro braceletes das quais duas foram no Main Event.

O Reaparecimento

stu ungar
The Comeback Kid na mesa final do ME WSOP 97

 

Infelizmente, a fama e dinheiro não foram positivos para Ungar. Durante anos, o consumo de cocaína manchou a vida do jogador. Em 1990, enquanto decorria o terceiro dia do Main Event das WSOP em que The Kid era o chip leader, ele foi encontrado no seu quarto, inconsciente depois de ter sofrido uma overdose. Ainda assim, conseguiu voltar às mesas e terminar em 9º lugar nesse ano. 

As coisas não pareciam correr de feição no campo dos vícios e abusos a Stu. Amigos próximos diziam que a única coisa que o mantinha vivo era a sua enorme força de vontade em ver a filha, Stefanie, crescer e, inclusivamente, ofereceram pagar a reabilitação numa clínica, algo que foi sempre rejeitado.

Na segunda metade da década de 90, mais propriamente em 1997, Ungar estava enterrado em dívidas e mostrava já danos físicos claros devido ao consumo de drogas. Ainda assim, ele conseguiu convencer Billy Baxter a pagar o buy-in de $10.000 para o Main Event. O primeiro dia não augurava nada de bom... Ungar estava tão exausto que chegou, inclusivamente, a adormecer na sua mesa. No entanto, após ser encorajado a descansar e manter-se no topo do seu jogo por parte dos seus amigos, conseguiu tornar-se chip leader e vencer o torneio pela terceira vez juntando-se a Johnny Moss na lista de únicos jogadores a vencer o Main Event por três vezes.

No decorrer da entrevista final, Ungar mostrou uma fotografia da sua filha a Gabe Kaplan e dedicou-lhe a vitória que lhe valeu a alcunha de “The Comeback Kid”. 

A Queda

Quem nasce torto tarde ou nunca se endireita e, infelizmente, o ditado assentou como uma luva a Stu Ungar. 

Após dividir o milhão de dólares que ganhou em 97 com Baxter, a sua vida voltou à loucura que sempre fora. A sua parte, $500.000 USD, foi gasta numa questão de meses, maioritariamente em drogas e apostas desportivas. Por diversas vezes, através do encorajamento da filha, o campeão tentou deixar de consumir drogas, mas nunca conseguiu.

Em 1998, após recusar nova oferta de Baxter para lhe pagar o buy-in do Main Event, The Comeback Kid desapareceu dos meios que frequentava, vivendo em diversos hotéis e motéis em Vegas, raramente saindo do quarto e com contínuas dificuldades financeiras. Chegou, inclusivamente, a ser visto a implorar por dinheiro para voltar às mesas, mas acabava sempre por o gastar em crack, droga que teve de começar a consumir depois das suas narinas terem colapsado devido ao exagerado uso de cocaína durante largos anos.

Foi nesse ano, mais propriamente a 22 de Novembro que Stu Ungar foi encontrado morto, no chão do quarto nº 6 do Oasis Motel após ter sofrido um ataque de coração, muito provavelmente, por consequência da vida que levava apesar de, à data, não terem sido encontrados vestígios significativos de estupefacientes no seu sistema sanguíneo.

Apesar de se estimar que tenha ganho cerca de $30 milhões de dólares durante toda a sua carreira, Ungar morreu falido e sem quaisquer bens em seu nome.

Recordar Stu Ungar

stu ungar
Stu Ungar com a sua filha, Stefanie

 

Apesar da sua vida de abusos, Ungar foi sempre amado pelos seus amigos mais próximos e demonstrou-se sempre respeitoso para com os outros nas mesas de poker. Como já mencionámos, a sua filha foi quem o manteve na luta durante muitos anos e o título de 1997 foi, também, devido ao encorajamento por parte dela. Após a entrevista com Gabe Kaplan, ficou bem claro que Stefanie era o centro do seu mundo.

Em finais de 2020, na semana do aniversário do falecimento do seu pai, Stefanie Ungar deu a oportunidade aos fãs de poker de saberem mais sobre o seu pai através dum AMA (Ask Me Anything) na plataforma Reddit. Ficam algumas das perguntas e respostas:

P: O teu pai ensinou-te a jogar poker?

R: Não, nunca me ensinou a jogar poker.

P: Quem é que o teu pai mais respeitava como oponente nas mesas?

R: Chip Reese.

P: Quem pensas ter um jogo parecido com o do teu pai?

R: Tendo em conta que não jogo, responderei com a opinião do Mike Sexton: Phil Ivey.

P: Jogas poker?

R: Não... mas, se tivesse de jogar alguma coisa, seria Blackjack. Muita gente fica surpreendida por eu não jogar. Não herdei os genes da matemática que ele tinha. Mas sim, definitivamente adoro Vegas! Nascida e criada aqui!

P: Alguma vez o teu pai escreveu, secretamente, as suas ideias sobre estratégia?

R: Não, nunca. Ele costumava dizer que sabia o que sabia, mas não sabia explicar como. Tinha uma mente brilhante. Um dom.

P: Que três palavras usarias para descrever o teu pai?

R: É difícil ficar-me por apenas três. Diria carismático, atento, espirituoso, perspicaz e leal.

P: Para além de jogos de sorte e azar, do poker e dos seus vícios, que paixões tinha o teu pai, algo que a comunidade de poker possa achar estranho ou interessante?

R: O meu pai adorava estudar história. Adorava filmes a preto e branco. Ele dizia que se não jogasse poker possivelmente seria um advogado. Não sabia cozinhar. Aliás, ele não fazia grande parte das coisas na vida que achamos serem normais. Por exemplo, costumava pagar $20 ao filho dum amigo para lhe levar o lixo para a rua. Ainda hoje acho isso hilariante.

P: Quando eras criança, sentias que o teu pai era uma celebridade?

R: Sim! Mas, no entanto, poker é algo muito maior hoje em dia por isso não consigo imaginar como seria.

P: Alguma vez viste o filme High Roller, baseado no teu pai? Achas que o representaram com fidelidade?

Sim, vi e não acho que tenham sido fiéis a quem ele era. Foi por isso que escolhemos não fazer parte do projeto quando nos apresentaram o guião. 

P: Qual a tua memória mais querida?

R: Tantas! O tempo que passávamos deitados no sofá juntos a conversar. E um dia em que ele me levou às compras no centro comercial e me viu experimentar todos os tipos de roupa... rimo-nos tanto! Foi um dia excelente de que me lembro com frequência.

Conclusão

Stu Ungar faz e continuará a fazer parte da lista de maiores lendas do poker. O que alcançou nas mesas, ainda que noutros tempos, foi extraordinário, e não saber o que The Kid poderia ser hoje no mundo do poker deixa um sabor amargo.

Ainda assim, será difícil alguém demonstrar a consistência que Ungar demonstrava. Em 30 grandes torneios de NLH disputados (buy-in superior a $5.000), o Nova Iorquino ganhou 10, dos quais 2 foram Main Events das WSOP e 3 foram Main Events do Amarillo Slim Super Bowl of Poker, o único torneio que se assemelhava às WSOP nos anos 80. 

A sua passagem pelos panos nunca será apagada e o seu lugar no Poker Hall of Fame estará, para sempre, assegurado.

Sobre o Autor
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Amante e jogador de poker, Frederico traz temas de interesse sobre a modalidade para o nosso blog. Artigos sobre estratégia, dicas, notícias ou simples curiosidades marcarão presença assídua aqui, na 888Poker.

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