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Graças a uma chantagem emocional habilmente subtil, a minha namorada convenceu-me a ver uma nova série romântica de TV chamada Bridgerton. Se ainda não viu, é sobre escândalos amorosos na classe alta inglesa em finais do Século XVIII. Não é bem a minha praia, mas eh...

Na verdade, eu estaria a mentir se dissesse que não estou, secretamente, a gostar de toda a burguesia e divertimento. Mas aquilo de que gosto mais em Bridgerton é como a série destaca o quanto as coisas mudaram nos últimos 100 anos.

Tudo, desde a forma como as pessoas se vestem e falam, a como dançam e se divertem, é extremamente diferente daquilo que conhecemos hoje em dia. É um lembrete subtil de uma das verdades inevitáveis da vida:

  • Tudo muda.
  • E o poker não é excepção.

Mesmo com o seu conjunto de regras relativamente rígidas, o jogo sofreu alterações significativas nas últimas décadas. Neste artigo, vamos examinar essas alterações.
 

Índice

  1. As Caras do Poker da Velha Guarda
  2. As Caras do Poker da Nova Escola
  3. Segurança em Primeiro Lugar, Evolução em Segundo
  4. Esqueça a Etiqueta
  5. Equipas de Profissionais e Patrocínios
  6. Muito Trabalho, Pouca Diversão
  7. Mas Porque é Que as Pessoas Já Não Falam?


As Caras do Poker da Velha Guarda

Uma das mudanças mais significativas no poker está relacionada com as pessoas nas mesas. Embora as salas de jogo pareçam bastante seguras e acolhedoras hoje em dia, as coisas costumavam ser muito diferentes.

Graças a amigos em comum, tive a sorte de beber umas cervejas com o falecido Dave “The Devilfish” Ulliot em várias ocasiões. O Devilfish é uma lenda legítima do poker, que jogava quando o poker era muito mais perigoso do que é hoje.

Tal como o jogador high-stakes e proprietário de um casino, Rob Yong, comentou num documentário em 2019, Dave “adorava ser o centro das atenções”. Portanto, não é surpreendente que as vezes que o conheci tenham sido dominadas por histórias bizarras da sua selvagem carreira no poker.

Não que alguém se importasse... o Devilfish tinha um talento natural para contar histórias. Por isso, nós ficávamos alegremente sentados como crianças na hora da história, com os ouvidos bem aguçados.

Ele contou-nos sobre as suas visitas e casinos clandestinos com armas escondidas, espelhando a sua descrição do grind no poker em 2008 como “um estilo de vida à James Bond sem as balas. [Apesar de que] também costumávamos ter as balas!”

Num antigo documentário sobre o Devilfish, ele descreveu a comunidade do poker como um bando de ‘mentirosos e traidores’. Ele relembra as vezes que usou uma bola de snooker dentro de uma meia para se defender de assaltantes no exterior dos casinos. 

Estas histórias espelham aquilo que Doyle Brunson disse várias vezes em entrevistas. Elas pintam uma imagem de uma comunidade de poker selvagem e insegura, repleta de mafiosos e ameaças.

As Caras do Poker da Nova Escola

O Poker Boom mudou isso tudo. Graças ao advento do poker online (em conjunto com a vitória de Chris Moneymaker no Main Event das WSOP), a atitude das pessoas em relação ao poker mudou. As pessoas podiam jogar muito mais mãos e aprimorar as suas habilidades em muito menos tempo do que anteriormente, num casino físico. 

O uso de fóruns online de estratégia também aumentou. As pessoas começaram a partilhar estratégias e ideias novas. E tal como com a maioria das coisas, a prática leva à perfeição. Com tantos jogadores a reunir as suas ideias, o padrão de qualidade aumentou acentuadamente.

Este influxo de jogadores jovens e de alto nível mudou completamente o cenário do poker. Quase 20 anos depois, esses jogadores da nova escola dominam as mesas.

  • A idade média é bem mais baixa do que anteriormente.
  • O típico jogador é mais estudioso do que intimidador.
  • Facas e espingardas foram substituídas por tabelas e poker solvers.
  • Os jogadores são agora mais propensos a destruir números no ICMIZER do que narizes no parque de estacionamento.

O retrato do poker de Hollywood faz com que muitos ainda associem a indústria a uma comunidade ao estilo gangster. Mas a realidade é que as pessoas que jogam poker hoje em dia são muito menos criminosas e muito mais tímidas.

O que é irónico, pois o jogo em si é muito mais agressivo de uma perspetiva estratégica.

Segurança em Primeiro Lugar, Evolução em Segundo

O advento do poker online também mudou muita coisa. Pode estar embebido no jogo, nos limites que quiser, no conforto da sua casa. Sem gangsters, sem espingardas e sem perigo... a não ser que ainda esteja a usar um modem 56k, obviamente!

À medida que os grandes sites de poker monopolizam a indústria, o acesso a bons jogos de poker ao vivo tornou-se muito mais fácil. Já não era necessário jogar em grandes jogos clandestinos. E correr os riscos associados a esses jogos deixou de ser algo com que os jogadores se tinham de preocupar.

As pessoas podiam deixar as suas bolas de snooker em casa, com a certeza de que dificilmente seriam roubadas. Podiam ter quaisquer ganhos transferidos diretamente para as suas contas bancárias ou contas de poker online.

Até os próprios anfitriões tornaram o jogo mais atraente: Os casinos foram regulamentados, passaram a ter as suas próprias equipas de segurança e a usar câmaras para evitar batota. Toda a indústria é muito mais segura, incentivando novos jogadores a tentarem a sua sorte.

Hoje em dia, a indústria tornou-se num local seguro e regulado para jogar.

Esqueça a Etiqueta

A sala de poker do Bellagio é a minha favorita em Vegas. Para além de ser dentro de um dos mais famosos e bonitos casinos da strip, é muito bem gerida. E a atmosfera é excelente.

Consigo ainda lembrar-me da minha primeira sessão, apesar de não ter conseguido jogar muito poker. Devido a uma longa lista de espera, acabei por ficar a vaguear por lá algum tempo. Enquanto esperava, reparei numa placa na parede com as Regras da Casa.

Para além de identificar o comum nos casinos, o rake e termos regulatórios, a placa esclarecia que ‘check-e-raise é permitido’.

Esta regra parecia bastante bizarra. Não por check-raises serem permitidos, obviamente. Mas o casino sentiu a necessidade de confirmar esta questão. Estava quase ao nível de dizer que é permitido lavar roupa interior ou passear o cão. Para mim, os check-raises são uma parte normalíssima da estratégia de poker.

Porque haveriam de não ser permitidos?

Para compreender a regra, é preciso clarificar a idade da placa. A sala de poker do Bellagio abriu em 1998 e, provavelmente, o casino pendurou a placa naquela altura. Apesar disto parecer relativamente recente, significa que a placa precede o Poker Boom.

É de uma época em que os jogadores ainda tinham uma mentalidade da velha guarda.

Como deve já ter percebido por comentários feitos por adversários mais velhos, muitas vezes era considerado boa educação e cavalheiresco ‘apostar a sua mão’.

Por causa disso, muitos acreditavam que fazer check-raise (ou sandbagging, como era conhecido) era rude e desonroso. As pessoas odeiam levar check-raise na maioria das vezes. A ofensa social de um robusto check-raise provavelmente levou a muitas discussões com pistolas envolvidas.

É um contraste gritante com aquilo que os jogos são hoje, onde o check-raise é algo padrão. Muitas pessoas veem um check-raise-bluff como uma jogada extremamente cool.

Pelos padrões estratégicos de hoje, é improvável você ser um excelente jogador se não estiver a fazer check-raises suficientes.

A nova postura sobre o check-raise mostra uma mudança considerável na atitude no poker. É indicativa de uma geração de jogadores que pretendem ser equilibrados em todos os aspetos.

Qualquer não-masoquista ainda acha que levar um check-raise é tão irritante quanto os preços do combustível são agora.

Mas os jogadores modernos, da nova escola, aceitam-no como algo que faz parte do jogo.

Equipas de Profissionais e Patrocínios

Outra coisa que mudou bastante em anos recentes é a prevalência de profissionais patrocinados e embaixadores de poker. No auge do poker boom, conseguir um patrocínio dependia simplesmente de ganhar o torneio certo.

  • Insígnias de todos os tamanhos e feitios enchiam as camisolas de qualquer jogador com sorte suficiente de se sentar numa mesa da TV.
  • Os operadores atiravam patrocínios com tanta facilidade como os insultos num post do Jake Paul.

Por isso, a perspetiva de fama e fortuna no poker era uma proposta muito realista. Muitos jogadores estabeleceram esses objetivos. Tornar-se num profissional patrocinado era possível e satisfatório.

Conseguir um patrocínio era uma excelente forma de compensar a instabilidade financeira do poker profissional. Posto isto, não era tudo sobre o dinheiro.

Os seus resultados no curto prazo estão, geralmente, desconectados da qualidade do seu desempenho. O status de Profissional Patrocinado oferece validação, uma conquista que é rara no poker. As campanhas de marketing glorificavam os profissionais patrocinados como pesos pesados do poker.

A sua proeminência num site de poker online encorajou os jogadores a fazer login e testar aquilo que sabiam contra eles. Ou alguns até podiam sonhar seguir os passos do seu jogador profissional favorito. 

Hoje em dia, conseguir um patrocínio é muito mais difícil, e o mercado mudou. Há menos dinheiro a circular online devido a vantagens de habilidade menores e popularidade reduzida. Os sites são, agora, muito mais sensatos sobre aqueles que os representam.

Obter o status de Profissional Patrocinado hoje em dia requer mais trabalho do que sorte.

  1. Você deve permanecer comercializável enquanto se esforça o suficiente para competir com a elite do poker;
  2. Ou (ambiciosamente) dedicar dezenas de milhares de horas à construção de uma boa base de seguidores no Twitch, Instagram ou YouTube.

Embora isto torne o título de Profissional Patrocinado muito mais prestigiante, é muito mais inatingível para os jogadores de hoje em dia.

Muito Trabalho, Pouca Diversão

De uma perspetiva social, o poker também mudou drasticamente. Haverá sempre um pequeno número de maus perdedores e sabichões. Mas, no geral, as mesas são muito menos tagarelas nos dias de hoje.

Ao mais alto nível, jogadores como Christoph Vogelsang estão a matar a diversão do jogo sentando-se em silêncio durante 10 minutos antes de agir. Vogelsang pode ser um rei da estratégia, mas dá uma péssima imagem ao poker, que era suposto ser um jogo divertido.

Compare o estilo lento e com pouca vida de Vogelsang a jogadores como Hellmuth, Laak, Negreanu, Esfandiari e Tony G. As suas interações tornavam o poker em algo divertido de ver em programas como o Poker After Dark e High Stakes Poker.

Mesmo online, muitos sites estão a substituir o chat por simples emojis ou a remover a opção por completo. Parece que a interação social já não está na moda.

Mas Porque é Que as Pessoas Já Não Falam?

Tal como já dissemos, o poker boom trouxe um influxo de novos jogadores mais estudiosos. Estes jogadores dominam as mesas modernas e não estão lá para conversar.

Eles vieram para aliviar a carteira dos outros jogadores de forma a poder comprar Red Bull e Adderall em massa.

Online, a maioria dos jogadores normalmente joga muitos jogos em simultâneo, tornando a conversa praticamente impossível. Às vezes, parece tão anti-social como uma viagem de metro em hora de ponta.

O chat no poker online parece ter deixado de ser algo comum.

E o mesmo acontece em jogos ao vivo. Apesar de ser improvável encontrar uma mesa cheia de Vogelsangs, os jogos estão a ficar cada vez mais sérios. Especialmente à medida que vai ficando mais longe dos limites micro, que muitos jogadores recreativos (especialmente os mais velhos) jogam por puro prazer.

Mas o aumento da habilidade dos jogadores força-os a levar o jogo a sério para sobreviver. Graças à enorme quantidade de streams e conteúdo online, até os jogadores recreativos são relativamente sólidos hoje em dia.

Há uma proporção maior de profissionais ou aspirantes a profissional nas mesas do que há 10 ou 20 anos atrás. Muitos jogos high-stakes e privados geralmente envolvem apenas um ou dois fishes.

Se quiser ver o quanto o jogo mudou, compare as atitudes dos jogadores mais velhos com as dos mais jovens. A geração um pouco mais velha (digamos, aqueles entre os 40 e 50 anos) é mais propensa a abrir uma cerveja e brincar um pouco nas mesas.

As coisas mudam. É algo que temos de aceitar.

O poker mudou muito nos últimos 25 anos.

Quem sabe como será daqui a outros 25!

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